P: Por que
planejar a carreira? Qual deve ser o objetivo
estratégico de carreira?
R: Uma carreira
deve ser vista como um negócio. Existe um
objetivo de lucratividade, existe um mercado
onde se pretende atuar, existem clientes para
serem atendidos e toda uma estrutura de habilidades
e competências que precisam ser desenvolvidas
e atualizadas constantemente para evitar a
obsolescência. Este é seu produto.
No final, há também
aquele desejo de "profissionalizar a
direção da empresa", isto é, criar um
patrimônio que outros possam administrar e
garantir que tenhamos um rendimento suficiente,
ou garantir que a "empresa" possa
ter mais tempo para se dedicar a atividades
com objetivos menos financeiros e de maior
significado social. Antigamente isso era chamado
de aposentadoria.
Em meu último livro
"Marketing de Gente" mostro como
o profissional deve agir em relação à sua
carreira, principalmente aqueles que hoje
saem de uma faculdade sem ter uma idéia clara
daquilo que espera por eles no mercado. O
livro abre com o exemplo do porquinho que,
quando questionado sobre o que gostaria de
ser quando crescer, respondia alegremente:
"Salsicha!".
Embora salsicha
fosse algo útil, ele nem imaginava que iria
precisar morrer para que sua carreira se tornasse
realidade. E, de certo modo, é assim que o
profissional deve se preparar: morrendo para
velhos hábitos, vícios e idéias equivocadas
do que seja uma profissão, e se transformando
em algo de utilidade.
P: Como
desenvolver a carreira profissional e ganhar
visibilidade?
R: O primeiro passo
é buscar juntar continuamente capital intelectual.
Todo profissional deveria começar perguntando:
O que tenho para oferecer que alguém teria
interesse em comprar? Se ele não tiver coisa
alguma, nenhuma habilidade, nenhum conhecimento,
nenhuma competência, então é bom começar a
procurar.
Poucas pessoas raciocinam
em termos de produto e mercado quando pensam
numa carreira. Estão procurando um emprego
nos moldes antigos, uma mãe que garanta seu
leite por tempo indeterminado, sem ficar muito
claro o que a criança oferece em troca além
de reclamar por mais leite. Hoje não é mais
assim. O profissional deve enxergar seu empregador,
seja ele permanente ou temporário, como um
cliente que deseja comprar algo de útil.
A visibilidade é
conquistada menos com exposição inconveniente
e mais com os resultados de um trabalho bem
feito. Se eu disser que sei fazer bem isto
ou aquilo, minha voz tem pouco poder para
convencer, mas se várias pessoas falarem a
mesma coisa porque tiveram uma experiência
de satisfação com meus serviços, o impacto
será muito maior. O segredo, portanto, não
é falar de si, mas criar condições para que
os outros comentem. Com a tecnologia da informação
isso ficou mais fácil, porque as pessoas podem
se comunicar instantaneamente com milhares
de amigos.
Publico em meu blog
várias crônicas que, no final, têm um convite
para que o leitor envie o endereço para um
amigo. É grande o número de pessoas que fazem
isso, não porque convidei, mas porque realmente
gostaram do que leram. Quando trazemos algum
benefício a alguém, essa pessoa irá divulgar
e acabamos ganhando visibilidade. Evidentemente,
em meu caso, precisei criar um blog e escrever
os textos, porque nada acontece sem trabalho.
P: Por que
algumas pessoas passam um bom tempo na empresa
e não conseguem o reconhecimento. Muitas vezes
nos empenhamos e os louros da conquista ficam
para a equipe. Como obter evolução em uma
empresa?
R: A principal razão
é que a maioria nem sempre merece um reconhecimento
porque estão fazendo apenas o que a empresa
esperava que fizesse. Quando falamos em reconhecimento,
falamos em recompensa, seja na forma de aumento,
seja na forma de prestígio ou até de um tapinha
nas costas.
Se faço apenas o
que se espera que faça, não faço mais do que
minha obrigação, portanto não devo me surpreender
se não ouvir qualquer menção pelo meu trabalho.
Se errar, posso esperar ouvir, mas não é disso
que estamos falando. Porém, se exceder as
expectativas, aumento a probabilidade de ser
mencionado, de ser lembrado e, talvez, de
receber algum tipo de reconhecimento mais
palpável. É como quando compramos um produto.
Se compro geléia
de morango e encontro exatamente isso dentro
do vidro, não aconteceu nada de mais. Porém,
se ao abrir o vidro descubro que a geléia
é formada por enormes morangos suculentos,
completamente diferente daquelas massas coloridas
e açucaradas que vemos por aí, é provável
que continue a comprar aquela marca mesmo
que aumente de preço e ainda vou fazer um
favor ao fabricante, divulgando entre as pessoas
que conheço.
Funciona igual no
trabalho. Dentre dezenas de marcas expostas
na gôndola do supermercado, esta irá se sobressair
para mim e para as pessoas que já experimentaram.
Ainda que alguém diga que naquele supermercado
há boas marcas de geléia, todos saberemos
qual é a melhor. É preciso ter um algo mais
para se destacar em meio à massa de uma equipe
e, ainda que nosso trabalho faça parte de
um todo, de um esforço conjunto, se tenho
uma marca pessoal de distinção, qualidade,
atitude, reputação e outras qualidades, vou
ser notado.
P: O marketing
pessoal poderia ajudar neste caso? Como fazê-lo
sem parecer pretensioso?
R: Existe muita
confusão com a palavra "marketing".
Muita gente acha que é sinônimo de propaganda,
mas não é. Marketing é toda uma estratégia
de se identificar, analisar e atender necessidades
e desejos de um determinado mercado, obtendo
lucro e reconhecimento no processo. Portanto
o marketing pessoal começa não na pessoa,
mas no mercado ou ambiente de trabalho que
ela pretende atingir. O profissional que pergunta
"Como será que posso ser de ajuda neste
ambiente de trabalho?" deu o passo mais
importante para seu marketing pessoal.
Veja que como profissionais,
o que "vendemos" para nosso cliente
empregador é o nosso serviço. A palavra serviço
vem de servir, e quem serve é servo. Infelizmente
nem todo profissional gosta de se enxergar
numa posição de servo por achar que é um posto
humilhante, porém não é, quando se trata de
uma ação voluntária. Um líder que está seguro
de sua capacidade jamais irá achar que está
perdendo algo por se colocar como exemplo
de serviço.
P: O que
é uma pessoa bem sucedida?
R: Não é alguém
que ganhe muito dinheiro, embora tudo neste
mundo tente nos dizer que é. Conheço pessoas
riquíssimas que não têm nem um átomo da alegria
e paz de outras que têm apenas o suficiente
para suas necessidades e vivem felizes. São
riquíssimas em riquezas intangíveis. Portanto,
sua pergunta, se for no sentido de bem sucedido
como pessoa, tem um sentido muito mais amplo
do que aquele que é limitado apenas por sua
carreira.
Uma vez li um diálogo
de um ancião com um jovem recém formado. Ele
perguntava ao rapaz quais eram seus planos
para o futuro e o rapaz respondeu que queria
buscar um emprego. O ancião perguntou se era
só isso. O jovem continuou, explicando que
queria subir no emprego, fazer carreira. O
ancião continuava perguntando se era só isso
e o jovem ia acrescentando metas: uma boa
casa, um bom carro, esposa, filhos, casa de
campo, barco, amigos, esportes, ser dono de
seu próprio negócio etc. O velho não se contentava
e perguntava o que mais. Dar uma boa faculdade
para os filhos, conseguir uma aposentadoria
confortável, viajar pelo mundo.
A conversa vai até
não sobrar mais tempo de vida e o jovem acaba
concluindo que aí ele iria morrer. É então
que o ancião lhe diz: "Se a sua perspectiva
de sucesso só dura uma vida, devo dizer que
é muito pequena". O que ele queria dizer
era que um plano visando o sucesso nunca deve
se limitar ao trabalho, família ou às coisas
que duram apenas alguns anos, mas ampliar
essa perspectiva para durar uma eternidade.
No meu caso, fiz isso quando ainda tinha 24
anos e me tornei cristão.
P: Quais
as conseqüências para a falta de planejamento
de carreira?
R: Acredito que
a principal seja uma falta de direção bem
definida. Se não temos um objetivo na vida,
e isso inclui um objetivo na carreira, vamos
ficar pulando de um lado para o outro, mudando
de rumo a cada brisa e nunca chegaremos a
lugar nenhum. Porém isso não significa também
se agarrar a uma carreira ou profissão e ficar
dando socos em ponta de faca quando vemos
que já não existe mercado para o que fazemos.
Profissionalmente
devemos estar sempre prontos a mudar, porém
devemos ter um alvo que seja significativo
o suficiente para mantermos a vista fixa nele.
Daí a necessidade de não limitar esse planejamento
apenas à carreira, mas ampliá-lo para a vida.
É como velejar. Temos um ponto bem claro onde
queremos chegar, mas às vezes será preciso
fazer um zigue-zague para atingi-lo. Todavia,
nessa viagem há princípios que são imutáveis,
como nossas crenças e valores, desde que sejam
as crenças e valores corretos. Porque se o
sucesso na carreira fosse medido apenas em
cifrões, todo mundo iria querer ser traficante
de drogas ou ladrão de bancos, atividades
altamente lucrativas.
P: O planejamento
de carreira deve ser veiculado à empresa que
trabalhamos? Ou deve ser independente?
R: O planejamento
deve ser independente, pois ninguém mais acredita
em estabilidade no trabalho. Quem se ilude
buscando construir uma carreira que fique
limitada à empresa, pode ver tudo ir por água
abaixo se aquela empresa for vendida ou sair
do mercado.
Vou dar um exemplo
bem radical para você entender. Faça de conta
que trabalho em uma empresa fabricante de
máquinas de escrever e vou estudando, fazendo
cursos, treinamentos e tudo mais sempre voltado
para a área de atuação da empresa onde trabalho,
que é a fabricação e venda de máquinas de
escrever. Nem preciso dizer a você o que acontecerá
com minha carreira, não é mesmo? Então, um
belo dia me encontro na meia-idade indo procurar
no mercado uma colocação para toda aquela
experiência que tenho em máquinas de escrever
e descubro que já não existe mercado para
isso.
Portanto, o profissional
deve sempre olhar mais além do que o pequeno
horizonte traçado pela empresa onde trabalha.
É claro que deve se aperfeiçoar dentro de
sua atividade atual, porém ciente de que amanhã
ela poderá não servir mais. Hoje aconselho
que a pessoa se prepare profissionalmente
para sair da empresa. Não que sair esteja
no seu plano, mas deve estar preparado para
o que fazer se sair.
Como fazem as comissárias
de bordo antes da decolagem. Elas explicam
a todos como proceder,caso o avião caia na
terra ou no mar. Não que alguém esteja ali
esperando que o avião vá cair ou até colaborando
para isso. Porém seria uma insensatez achar
que o avião é capaz de voar para sempre sem
acidentes.
P: Dentro
de uma carreira profissional quais os fatores
que garantem sucesso ao colaborador? Qual
a porcentagem que o fator sorte pode ajudar
neste caso?
R: Não diria que
a sorte seja o fator importante, mas a oportunidade.
E oportunidades podem ser chamadas de sorte
porque alguém as enxergou, se preparou e agarrou.
Aí os que não viram ou não estavam preparados
dirão que aquela pessoa teve sorte. Não é
bem assim. Pode surgir em uma empresa uma
vaga de gerente e, obviamente, aquele que
teve a "sorte" de falar mais de
um idioma vai acabar agarrando a posição.
O melhor mesmo é estar equipado para toda
"sorte" de coisas. Aí sim, a sorte
vai ser importante.